Colcha de retalhos

”Você é primordialmente uma apaixonada, Pietra.” disse a analista quando eu reclamava que   o coração estava vazio, luto de último namoro findo, meio à deriva, meio sem inspiração, numa falsa frieza, meio ~murcha~.

W., minha analista há mais de treze anos, lembrou-me da minha paixão pelo trabalho, pelos amigos, pela leitura, pelo recém readquirido hábito de patinar, que estava em algum lugar da infância… Pelo pai, já desmistificado, e por isso mesmo muito mais amado, pelo fim da idealização,  pela casa só minha, que tenho como um reino, as orquídeas dos amores que já não habitam meu dia a dia nem minha cama, que florescem alheias à qualquer desentendimento menor.

Nos últimos anos, emendei um relacionamento no outro, sem tempo para digerir o fim de um namoro para o começo de outro. Ficava estabanada, doida, vergonhosa mesmo, numa urgência de amar. Não respirava e pronto, mergulhava na apnéia do amor, de novo, sôfrega para principalmente, fazer feliz.

Não teria nada de errado, seria até muito bonito nos romances, eu interpretaria, sei lá, a ‘abnegada dúbia de Ipanema’ ou coisa que o valha…

A saúde das relações se faz na intimidade, na parceria, na falta de vergonha completa na hora do sexo… Mas isso não é possível trancado numa bolha, os dois ilhados. Imprescindível observar no início de tudo como a pessoa trata os amigos, a família, se proteger, mesmo que sem total, ou quase nenhuma eficácia de prever que haja respeito/ética no caso de término.

Salientando que todos os namorados que eu tive eram pessoas ímpares e cheias de virtudes, e não estou falando de um apenas, quando os descrevo, falo de todos nós.

Em verdade, somos uma colcha de retalhos, um patchwork heterogênio de todos que fizeram parte da nossa vida amorosa até aqui.

Uma parte de mim é o menino que cozinhava e tinha um passado mirabolante, cinematográfico até, com quem iniciei minha vida sexual. Sou também o que venceu o alcoolismo e gostava de cuidar das plantas (plantas legais, jent!), com quem vivi um monte de aventuras incríveis, descobrindo o sexo pós adolescente. Há também clara influência do ex marido protetor e companheiro que me ensinou o que é amizade, sem precedentes, e  hoje tem uma merecida nova família… Tenho a mesma segurança do garoto que ia ao Fórum de moto quando subo nos patins… típico menino do Rio,  não falava a mesma língua que eu, mas era um homem excelentíssimo com os pais, de constranger. Sou também o artista, que era música para eu ser letra, que sempre abria a porta do carro e foi o maior incentivador da minha carreira, comprando ‘o meu barulho’ sem pestanejar, numa aula do que é ser ‘dupla’. E tenho trabalhado em ser também o organizado, precavido, que não contava com a paixão, mas entendia minhas piadas, e contava tantas outras, com quem ria até doer o maxilar. De aparência frágil, mas um foco impressionante nos objetivos, muito orgulho.

E no momento encontro-me inteira, mas sem pressa de dividir-me.

A solidão da madrugada me alimenta e o futuro me intriga, com frio na barriga.

Na verdade estou apaixonada sim, mas é pela liberdade. Até que alguém venha e bagunce meu mundo outra vez. =)

Muito amor,

@pietraprincipe