14.09 - 16:56hs
Ataliba tinha talento desde pequeno para a área de contabilidade. Contava quantos homens entravam e saiam do quarto de sua mãe durante o dia, quantos copos de uÃsque seu pai bebia quando chegava à noite do trabalho, quantos postes passavam pela janela do carro quando ia pra escola, quanto tempo a empregada atrasava pra buscá-lo, quantas teclas digitava por minuto no computador, quantos foras tomava de garotas e quantas conseguia beijar na matine, quantas latinhas de cerveja bebia em um churrasco e quantos espetinhos comia. Não deu outra, foi trabalhar como contador, depois de contabilizar um número alto de diplomas que nunca iriam contar pra nada no mercado de trabalho. Contou uma porção de mulheres, sobre as quais contava vantagem para os amigos, e uma porção de divórcios também. Nenhuma aguentava a mania de Ataliba, ele contava os minutos do banho para economizar luz, dizendo que não era sócio da Light, contava os dias que passavam juntos, lembrando todas as datas, o que o tornava a mulher da relação, contava tudo o que fez no seu dia e que elas, de fato, não estavam interessadas. Ninguém tinha voz na casa de Ataliba, a não ser o próprio.
Certo dia, a mulher da vez de Ataliba descobriu uma coleção bizarra escondida em seu criado mudo, um caderno com o nome de todas as pessoas com quem fizera sexo e os detalhes sórdidos. Foi a primeira vez que alguém fez uma conta mais rápido que Ataliba: três gotas. E então, ele fez sua última conta: sete palmos.
31.08 - 13:14hs
Ela tinha um fetiche secreto que não ousou contar pra ninguém até aquele momento. Sentia-se constrangida só em pensar no assunto. Mulher feminista que era, como se atreveria a ter tais pensamentos sem ser rechaçada por si própria e por aquelas que considerava suas iguais? Nunca, em hipótese alguma, lançaria no vento seu desejo mais remoto, na mesa de um café com suas amigas, ou até mesmo para um parceiro casual que nunca mais tornaria a fitar seus olhos. No entanto, como muitos já sabem, a paixão nos pega desprevenidos e passamos a confiar em quem não deverÃamos antes da hora. Mas ela era esperta e precavida, não dava ponto sem nó. Mesmo sentindo seus impulsos falarem mais altos, um frenesi estranho lhe percorrer a espinha, uma sensualidade não notada antes na própria boca quando lambia os lábios, os seios apontando na blusa branca, um frio de espÃrito que passa e arrepia a gente, a parte interna da coxa esquentar a região só de encostar uma na outra, e muitos outros sintomas que a timidez e os bons modos me impedem de descrever aqui, ela se segurou até o momento certo. E quando sentiu este momento, confessou, sem medo de caras e bocas, pois confiava que ele só tinha uma face, e uma boca que ela ocuparia antes da resposta.
“Eu morro de vontade de transar de burca.â€
O choque não foi menor do que se ela tivesse transado com outro. Mas na verdade era o contrário disso, queria se esconder em uma burca durante aquilo que considerava mais sagrado na terra: o sexo. E ele, em seu pensamento de macho feminista se sentiu mal, como se estivesse lhe causando dor.
Não teve jeito, ela apareceu na noite seguinte com a Burca já cobrindo sua fronte, como uma discÃpula de Mohammed. Antes que pudesse recusar ela o puxou contra o seu corpo numa maestria digna de mil e uma noites.
A mulher moderna na fantasia da retraÃda. O que ele descobriu depois é que debaixo daquela burca ela não representou. Gozou com a cara que quis sem o espelho dos olhos de ninguém a ameaçando. Conseguiu se libertar de verdade só quando não podia mais.
E a noite foi uma das melhores da vida dos dois.